O Baralho da Maria Padilha
By Eliane Arthman
A autora

Introdução

Desde a mais tenra idade presenciei, em várias oportunidades, o manuseio das cartas que minha avó paterna, Anita, jogava. Sempre muito curiosa quanto àquele Oráculo que mexia com a minha imaginação, tentava acercar-me dela na intenção de fazê-la falar a respeito daquela “magia”, que era frequentemente procurada para consulta por pessoas dos mais variados escalões sociais: engenheiros, advogados, donas de casa, prostitutas, jogadores de pôquer, etc.

Certa vez, ela me mostrou um livro de capa de “aço”, de São Cipriano. Li alguns itens e o devolvi a ela.

Ela o reteve nas mãos durante alguns instantes, pensativa, até que (até hoje não sei porque), resolveu passá-lo à mim novamente, não antes de me alertar quanto ao enorme mistério que envolvia o livro. Eu o abri novamente, curiosa, mas, por tornar a não ver nada demais, depois de algumas folheadas, fechei-o e o devolvi. Ela me olhou dentro dos olhos e disse, quase que num sussurro, que aquele não era um livrinho comum de histórias e, sim, um pequeno resumo de toda a “magia” que envolvia o mundo. Pediu que eu o lesse no intuito de aprender mais sobre as coisas de Deus, pois sábio é o homem que ousa conhecer os dois lados da moeda, sem medo ou preconceito!

Ela me disse:

- “O Senhor criou os dois “Mundos”, o da treva e o da Luz! Para que possamos nos proteger do mal, precisamos conhecê-lo bem, sem atacar ou ofender os irmãos que ainda não sabem donde vem a Luz e para quê que a Verdade precisa ser conhecida!

Eles são como as crianças que ainda frequentam o Jardim de Infância e que necessitam do carinhoso auxílio e das valiosas instruções dos Mestres da Luz para sair de sua condição de ignorância! Não podemos apontar aqueles que perderam o privilégio de encontrar e de conhecer a Verdade! Foi Deus quem criou as leis que regem o inferno, mas Ele jamais quebra estas Leis! Somos nós que através dos nossos sacrifícios as quebramos, sob o singelo poder do Amor emitido por nossas sinceras abnegações!”

Suas palavras me soaram feito uma bomba! “Meu Deus, pensei comigo mesma, isso é maravilhoso demais!”

E, assim, adentrei no mundo da “Magia”, abrindo suavemente uma porta imaginária que me levou até do outro lado do espelho. E, do outro lado do espelho, descobri um mundo paralelo, onde povos de variados mundos trabalhavam com afinco e dedicação, auxiliando os necessitados nos variados aspectos da vida. Ali não havia “Tempo”. É claro que, naquela época, eu não podia compreender o que era “Tempo”, mas, ao longo dos anos, gradativa e lentamente, “eles”, os habitantes dos mundos paralelos, me falariam a respeito disso. E falaram mesmo, esmiuçadamente!

Eles começaram a me dizer que a energia que atuava nos Oráculos provinha dos Seres enviados pelo Divino Espírito Santo, já que somente Eles tinham o poder de mudar certas situações através da palavra

“A evangelização leva anos para ser concluída. Aos poucos o espírito absorve esse aprendizado e passa a vibrar na mesma sintonia do Universo. Assim, o espírito passa a ser um “intermediador” entre os dois lados do espelho. Chama-se isso de “mediunidade”. A partir daí, por estar “emitindo” esse sinal especial, os espíritos interessados em auxiliar a coletividade se aproximam e estabelecem um contato.

Mas tudo começou, de fato e mais seriamente, aos treze anos, quando deitada em minha cama, rezava pedindo por meu pai, pois tivera uma visão dele sendo assaltado e morto.

Emocionada, eu chorava copiosamente ao mesmo tempo em que rezava, pedindo ajuda a Deus. Não sei ao certo quanto tempo se passou ou nem mesmo se adormeci. Virada para a parede, de costas para a janela, senti que havia alguém ao lado da minha cama. Sem medo algum, me virei e soube, de imediato, que era Ele! Estava sentado no chão, com o queixo apoiado nas mãos e os cotovelos sobre a cama.

Ficamos, os dois, cara à cara. Por infinitos instantes vislumbrei Seus olhos, que pareciam duas luas brilhantes. Ele me olhava mansamente e parecia divertir-se com a minha desconfiança. Mas o Seu olhar foi me desdobrando por dentro, suave e continuamente, desfazendo qualquer dúvida que eu pudesse ter quanto a Sua divina personalidade. Mesmo estando nós dois mergulhados no Silêncio, Seus ensinamentos podiam ser absorvidos por mim, pois Seu toque em minha mão era como um potente fio condutor.

‘Não pode ser Ele!’, pensei. Mas quem seria aquela pessoa, afinal? E como se lesse os meus pensamentos, Ele olhou para trás e me perguntou se eu não acreditava só por que Ele viera sem os Seus exércitos.

Naquele instante todo o mundo que eu criara foi por água abaixo, pois compreendi que Ele não estava na cruz, nem muito menos morto! Ele não tinha advogados espertos, secretários ou gerentes. Ele era nada! Aliás, Ele me disse: ‘...eu sou o último de todos os servos de meu Pai!’. (Muitos anos mais tarde, num desdobramento, Ele me explicou que todos Eles, Seres de pura Luz, passam pelo filtro de nossa humanidade transformando-se, assim, naquilo que podemos conceber. Eles não tem forma ou mesmo nome, pois que pertencem a uma realidade fantasma, onde só existe o ‘Ser’ e a infinita paz. Não há ruídos ou silêncios, fome ou saciedade, prosperidade ou miséria. Há apenas o pensamento e o ‘Om’ a vibrar, envolvendo todo o Universo. O que quer que eu fosse, Ele me surgiria como um par, concebível para mim.)

Às cinco horas da manhã daquele mesmo dia, tivemos a notícia de que meu pai fora assaltado e que os assaltantes, por terem visto a carteira dele de Agente Federal, miraram em sua cabeça, mas a arma falhou e, assim, eles atiraram na virilha, quase atingindo a veia femoral. Mas meu pai sobreviveu. Depois daquela noite, eu segui Seus passos obediente, fielmente emuito à vontade, pois sabia que Ele aceitava-me como humana e que nada que eu fizesse me tiraria de Seu rebanho.

Estudei infinitamente sobre as Leis que regem o Universo e prestei atenção aos ensinamentos que Ele me passava, mas sempre tendo certeza de que o barco da minha própria vida teria de ser administrado e guiado por mim mesma e não por Ele.

Em 1997, antes de criar o Baralho da Maria Padilha, Ele me pediu que fosse à Aparecida. Sempre amei à Mãe Santíssima, mas nunca fora ligada a Ela como era a Ele. Estava passando por problemas muito sérios em meu casamento e depois de aprender a rezar o Terço, resolvi fazer o que Ele me pedira. Muito contrariada, deixei que meu marido me levasse lá.

Ele resolveu me levar na antiga Igreja, que é bem pequena em relação ao Santuário. A Igreja estava lotada e meu marido arranjou um lugar para sentar enquanto eu rezava um terço, de pé.

À esquerda de quem entra na Igreja, vi uma salinha por onde muitas pessoas circulavam, não me permitindo visualizar o que continha nela. Mas, de olhos fechados, concentrada em minhas orações, fui sendo levada pelo tumulto, até que, sem querer, esbarrei em algo. Abri os olhos e vi uma escultura que representava o Cristo morto.

Imediatamente caí de joelhos e encostei minha cabeça na mesa em que a escultura repousava. Em um segundo o meu mundo ficou em silêncio e pude sentir o suave toque de Sua mão direita sobre a minha cabeça, me passando profundos ensinamentos e instruções que até hoje me chegam. Num último interregno de segundo, Ele falou: ‘...vieste ver minha Mãe e não esperavas me encontrar aqui, não é, filha?’. Tive a certeza de que Ele estaria sempre comigo, em qualquer lugar por onde eu andasse.

A Criação de ‘O Baralho da Maria Padilha by Eliane Arthman”

Em meados julho de 1997, sentei-me numa cadeira junto a mesa da sala, acendi uma vela e enchi uma taça com uma bebida doce.O detalhe é que nunca bebi álcool, nem mesmo nas festas de Final de Ano!

Após acender a vela, vibrei o nome de cada um de meus mestres, que não eram poucos!

Depois de alguns minutos de oração, uma luz surgiu por detrás da parede e pude sentir uma leve presença feminina.

- A chama não vai se apagar! - ela me sussurrou - Eternamente essa lembrança acionará as consciências libertas e os Mestres do Universo usarão os símbolos desenhados hoje como portais para as dimensões de aprendizado, permitindo a visão do futuro ! A autorização está sendo dada hoje! As portas finalmente se abriram!

"Autorização?", pensei

.

Nas duas últimas palavras vibradas, já não havia ambiente, vela, taça ou mesa.

Eu era o Infinito e pude ouvir bilhões de murmúrios pronunciando orações e ver muitas mandalas sendo traçadas. (Não tenho certeza se eram pontos riscados ou mandalas). De dentro daquela Luz muitas "Consciências" surgiram e, logo, deram passagem a uma linda mulher.

Ela estava toda de vermelho, com um arranjo negro a prender-lhe os cabelos brilhantes e sorria feliz. Eu sempre fora muito contida e estranhei quando a vi sacudir os ombros e jogar a cabeça para trás.

No mesmo minuto em que lhe acompanhava visualmente e analisava a figura, meus olhos passaram a observar alguns pontos luminosos que pensei terem cedido ectoplasma para dar "forma" àquela interessante mulher!

Era mais de meia-noite e o silêncio reinava absoluto, já que morava numa rua silenciosa da Barra da Tijuca.

Peguei a taça e sorvi seu conteúdo em três goles estalando a língua em cada um deles, demonstrando prazer, e tornei a enchê-la. "Meu Deus! Nunca bebi assim! Nunca!", admirei-me.

Apesar de estar consciente, não consegui controlar meus gestos e nem muito menos os meus pensamentos.

Não entendia o porquê daquela Luz meio amarelada por detrás da parede, que parecia estar sendo emitida por uma fogueira amarelada nas bordas e muito branca em seu núcleo. Não havia parede. Quer dizer, havia parede, sim! Mas ela não estava materializada naquele momento, pois eu podia ver através dela.

Eu não enxergava através dos meus olhos ou ouvia através dos meus ouvidos.

E, em estado de consciência completamente alterado, comecei a desenhar a primeira carta, que seria, na verdade, a Carta 2, ouvindo as milhões de vozes em oração.

Mesmo que tentasse entender o que pronunciavam na tal oração, o idioma no qual eram recitadas não era o mesmo que o meu. Sabia quais eram as orações, mas elas não me pareciam inteligíveis naquele momento.

- Escute bem: cada lâmina desse Baralho conterá uma parte de mim. Entende isso? - perguntou ela com sua voz firme e doce. Eu estava como que hipnotizada prestando atenção na cor de seu batom enquanto a ouvia falar e, por isso, não reagi a sua pergunta.

Só voltei a mim com o som de sua gostosa gargalhada.

- Entendi, sim, Senhora! - respondi ajeitando-me na cadeira.

Ela estava dividindo a mesma cadeira comigo, do meu lado direito, escrevendo com a mão sobre a minha mão. Não atentei, naquele momento, para o fato de ela escrever e desenhar com sua mão direita, assim como eu também. Portanto, ela estava sentada no mesmo lugar que eu, mas sua "consciência" era diversa da minha. Ela me empurrava gentilmente, como se eu estivesse atrapalhando os seus movimentos. Antes que caísse da cadeira, levantei-me.

Ao fazê-lo, admirei-me por ver uma estrada, ladeada por um mar em cujas águas milhares de lamparinas acesas boiavam. O espelho da sala, que ia de parede à parede, sumira!

Logo pude sentir que a energia ali despendida era maravilhosa e balsâmica, mas senti que não era um oceano do Planeta Terra. Ele pertencia a um mundo de uma outra dimensão.

Mais adiante vi carroças estacionadas e, ao redor de uma fogueira, ciganos dançavam, cantavam e batiam palmas, descontraidamente. Não consegui deixar de dançar e divertir-me também; um pouco distante dali, vi uma senzala iluminada por muitos lampiões, onde mulheres e homens negros batiam palmas, tocavam atabaques e dançavam felizes, rodeados por muitos Orixás que, apesar de não terem corpos materiais, eram vistos por todos que ali estavam; havia, também, um Cruzeiro de cemitério, iluminado por uma clara luz vermelha, quase cor-de-rosa, ladeado por uma enorme e frondosa figueira, sob a qual três belas mulheres estavam. Aproximei-me e vi: uma era Dona Maria Padilha, a outra era Dona Rosa Tata Mulambo da Calunga e a última era Dona Maria Mulambo.

Muitas outras "Marias", ocultas pela noite, também estavam ali, cedendo graça e axé, para que aquela clareira ficasse aberta até que toda a mensagem fosse passada. Elas recebiam a Luz provinda da Lua-Cheia e tinham seus caminhos abençoados por Olorum, o Criador do Universo! Todos aqueles lugares que visualizei, faziam parte da jornada espiritual daquela, até então, misteriosa mulher:

as falanges do Mar, os Povos Ciganos, os Pretos-Velhos e os Povos da Calunga! Ela atuava, inclusive, em outras dimensões do Universo!

Como pano de fundo de todos os ambientes pelos quais circulei, estava a lua cheia, que emanava seus encantos e mistérios, como se fora uma Rainha da Noite.

- Gostou do que desenhei? - sua alegre voz arrancou-me da dimensão pela qual estivera passeando.

Olhei todos os desenhos e os vi como se o Baralho já estivesse pronto: o fundo negro, com seus desenhos nas cores branca, dourada e vermelha! O verso das cartas continham sete rosas vermelhas. Era realmente muito lindo!

- Senhora - chamei-a - o que é isso, afinal?- - "Isso" é um Oráculo! - ela gargalhou - Ele se desmembrará em outros Oráculos, quando o Tempo chegar! Tornei a olhar as cartas e, mentalmente, pude entender todos os seus significados. Ela exalava um aroma delicioso, que jamais consegui definir de qual "Maison" provinha e suas rendas faziam um farfalhar muito interessante.

Mas o que me encantou mesmo, foi sua humildade e simpatia. Tratou-me com muita elegância e bondade, explicando-me tudo com muita paciência, sem zangar-se com o meu torpor. Eu nem imaginava quem era ela... Pensei tratar-se de uma fidalga ou, quem sabe, uma cortesã europeia.

- Senhora - chamei-a novamente - perdoe-me inquirir-lhe... Qual é mesmo o seu nome?

Agilmente ela levantou-se da cadeira que estivera dividindo comigo e, segurando a saia, fez uma reverência bem diante de mim:

- Eu sou Dona Maria Padilha da Almas, moça!

A vibração da pronúncia que usou me fez, novamente, tremer da cabeça aos pés. Fechei os olhos e, ao reabri-los, a parede já estava materializada e tudo que vislumbrei desaparecera como que por encanto.

Mas sua voz ficou a vibrar em meus ouvidos, pois ela viera naquela abençoada noite abrir um Portal, depois de muito trabalhar e insistir em conseguir autorização de Deus para isso, com a anuência dos Espíritos maiores. E esse Portal estaria sendo aberto, também, no espírito de todos os que usassem esse Oráculo criado por ela.

Portanto, esse Oráculo pertence a Ela! Fui apenas um instrumento. Ele pertence, também, a todos os que respeitam e seguem Dona Maria Padilha!

Apesar de ter me passado toda a intuição do Baralho, Ela me desautorizou a interferir nos significados de cada Lâmina, pois à cada Instrutor caberia dar a própria interpretação à cada carta, conforme sua posição em cada jogada.

Até mesmo a forma de dispor o jogo Ela não queria divulgar, para que isso não viesse a interferir negativamente em seus novos Instrutores. Mas precisei insistir e lhe pedir durante muito tempo para que me autorizasse fazer um vídeo, mostrando a minha forma de jogar, já que no Livreto Explicativo isso não ficara muito claro.

Ela me disse que cada unidade do Baralho teria um Guardião, escolhido por Ela, que seria o responsável pela ativação e pela preservação dos poderes do jogo.

Disse, também, que eu nunca negasse autorização aos que quisessem promover os Cursos de Instrução dele, pois tudo isso já estava previsto por Ela e por toda a Sua Falange!

Até quanto à Consagração do Baralho, eu deveria deixar à critério de cada um, sem interferir em absolutamente nada que dissesse respeito ao Oráculo.

Acatei tudo aquilo que Ela tão gentilmente me pediu, pois senti que fazia questão que eu jamais esquecesse de quem era a verdadeira autora do Baralho.

O Difícil Aprendizado

Em 2001, depois de estar frequentando a Mini Cidade do Amor, de Frei Luiz, na Boiúna, desde novembro de 2000, descobri estar com câncer de pulmão. Eu havia dito a minha filha que iria à Medjugorje, na Hezergovina, em julho de 2001, ver a Virgem Maria, para ver se Ela me curava da dor que sentia no lado direito do rosto, que me levou a arrancar todos os dentes da arcada superior direita. Mas os dentes se mostraram perfeitos após a extração.

Devido a essa dor, eu queimara o rosto com os sacos de água quente! Mas o pior mesmo é que eu não poderia ir à Medjugorje ver a Virgem Maria, pois diagnosticada com câncer, não poderia viajar.

Depois da grande decepção que tive ao saber do diagnóstico fiquei profundamente desapontada com meu Mestre e O afastei da minha vida.

Apesar de passar toda a vida falando n’Ele, não pude contar com a Sua misericórdia para ter um diagnóstico mais ameno. (Eu O trato como ‘Ele”, já que anos mais tarde fui informada que ‘Ele” vem de uma realidade fantasma, onde não existe forma nem muito menos nome!)

Minha irmã, que é médica, tentou me acalmar e convencer sobre a necessidade de fazer quimioterapia, pois eu me recusava a aceitar o tratamento. Ela me fez pensar sobre a possibilidade de a minha filha ter problemas no caso de ter de me ver sucumbir à doença, definhando pouco a pouco. O tumor estava enorme e já havia tomado todo o pulmão direito. Era preciso fazer quimioterapia, para que o seu tamanho fosse reduzido, de forma a possibilitar a retirada do órgão.

Dois dias após a segunda sessão de quimioterapia, eu não conseguia comer ou beber nada. Desde a noite anterior eu não comera nem bebera nada por estar muito enjoada. No começo da tarde senti que não ficaria bem e tive certeza de que a minha hora se aproximava. Avisei a minha funcionária que talvez não passasse daquele dia e ela se lamentou por isso.

Com as poucas forças que tinha, resolvi tomar um banho, pois sabia que teria de me internar.

Era uma quinta-feira, de junho de 2001. Sentei-me na banheira e deixei a água do chuveiro cair sobre a minha cabeça, enquanto pensava em me despedir, ainda em vida, do Mestre que eu tanto amara.

Nesse mesmo instante, saí do corpo e caminhei por um longo corredor escuro, até a entrada do meu ser. Ao abrir a porta, bem na soleira, estava Ele, encolhido entre os portais, com a cabeça baixa, abraçando os joelhos. Suavemente Ele ergueu a face e me olhou, sem disfarçar Sua profunda tristeza.

“Tu me abandonaste!”
Eu tremi da cabeça aos pés ao escutá-Lo falar!
“Eu nunca Lhe abandonaria, Senhor! Pensei que não me amasses mais!”
Apesar de tentar disfarçar, eu estava arfante.
‘Fiz de ti uma instrutora e sempre deixei claro que jamais privilegio os que me seguem!”
Sua entonação era como a do inocente que tentava se justificar e, por isso, me ressenti comigo mesma!
Ainda encolhido entre os portais, Ele falou, quase que num sussurro:
‘Escute bem, o pior pai é aquele que não deixa uma filha sofrer, assim como o pior Mestre é aquele que faz a prova para o aluno! Tu bem o sabes!”
Me ajoelhei diante d’Ele, pois não resisti ao eflúvio amoroso que emitia. Mas Ele rapidamente me ergueu e abraçou.
“Não te ajoelhes diante de mim, pois tenho minhas ovelhas como minhas iguais!”
Tentei libertar-me, pois não queria mais o Seu abraço nem muito menos o Seu Amor!
Era tarde demais! Eu iria embora do corpo e me perderia na inconsciência dos que são esquecidos!
Mas eu precisava me despedir...
“Senhor, eu vou deixar o corpo hoje...”
Quase não conseguia falar direito, pois estava sem ar. Ao fitar Seus olhos mergulhei, sem que desejasse, num oceano de Luz e amor.
‘Não Te seguirei mais. Saio desse corpo direto para o inferno!”
“Vais sair do corpo?”
“Sim, Senhor, vou!”
“Porque queres ir para o inferno?”
“Porque eu não mereço a benção do Teu Amor!”
Ele tornou a me abraçar.
“Irei contigo ao inferno, filha!”
“Não, Senhor! – retruquei abismada ao ouvir aquilo -”
Ele segurou e acariciou as minhas mãos, como se pudesse, assim, ver toda a minha jornada espiritual através das linhas do meu Destino e continuou: “Aonde quer que os meus amigos vão, eu vou também!”
Aquela afirmação ecoa até hoje em meus ouvidos.
Acabei de tomar banho, vesti-me e fui para a clínica.
E sobrevivi!

Dias depois, no Frei Luiz, fui à Sala 1, para me consultar com o Dr. Frederick Von Stein. Após ser atendida pelo médium Gilberto Arruda, perguntei sobre a possibilidade de participar da próxima sessão de Materialização, ao que ele imediatamente alegou não haver vaga. Resolvi, então, pedir um abraço ao médium. Eu o abracei e me despedi e dirigindo-me à saída. Mas logo o ouvi gritar:

- Chama essa moça aí, chame-a! – se referindo a mim. Depois de me aproximar, ele me abraçou emocionado e passou a falar com o vulto de Frei Luiz: - Sim, pai, ela virá, sim, ela participará, sim! E, assim, saí do Frei Luiz com o papel que me autorizava a participar da sessão de Materialização do último sábado do mês de junho de 2001.

Quando fui até o Dr. Frederick, na sala 1, antes de participar da terceira sessão de Materialização, ele me perguntou se eu já estava curada, ao que respondi negativamente. Ele então me disse que eu seria a primeira a ser atendida na próxima sessão. E assim aconteceu.

Mas dias antes dessa sessão, eu teria de fazer uma tomografia computadorizada com contraste de iodo. No dia do exame, quando injetaram o contraste, a gengiva sobre o dente canino esquerdo começou a doer muito, a ponto de fazer meus olhos lacrimejarem profusamente.

Eu não havia contado a ninguém, mas estava com uma ferida na gengiva desde o diagnóstico. Eu escovava os dentes cuidadosamente para não ferir o local mais ainda. Eu sabia que, caso contasse o fato a alguém, logo veriam isso com desconfiança e eu seria obrigada a fazer uma biópsia.

No dia 21 de julho de 2001 fui para a Materialização, saindo de casa às 5:30’ da manhã, na companhia da minha irmã Marise.

Já dentro da sala, na hora da oração, o Dr Ronaldo Gazolla estava com a voz embargada, pois sentia, como todos nós, uma ambiência diferente em toda a Boiúna.

Ele rezava enquanto uma suave e perfumada “garoa” caía sobre todos nós que ali estávamos.

Ele parou a oração para tomar fôlego e falou baixinho: “Essas mãos no meu rosto...” E tornou a soluçar antes de completar: “...são as mãos da Virgem Maria.” A doce presença da Virgem entre nós, seus filhos frágeis e vacilantes, nos encheu da mais pura emoção. A “garoa” continuava nos banhando suavemente, enquanto eu tentava não tossir.

Quando saímos dali minha gengiva estava curada e os meus tornozelos e pernas completamente desinchados. Minha irmã que ficara dentro do carro dormindo, contou-me que teve um sonho com a freirinha que cuidara dela na infância. No abraço que a meiga noviça lhe dera em sonho, ela pudera sentir cheiro de um doce perfume. Quando despertou, ao abrir a porta do carro onde estivera dormindo, pode verificar que toda a Boiúna parecia estar envolvida no mesmo doce olor.

Foi um dia memorável para todos nós!

No dia 08 de outubro de 2001 eu me internei para a retirada do pulmão. Depois de algumas horas, a anestesiologista saiu do Centro Cirúrgico para avisar a minha irmã e ao meu cunhado, que são médicos, que o pulmão não queria sair, pois o tumor crescera muito, mesmo depois das sessões de quimioterapia. Caso não conseguisse retirá-lo, o doutor iria fechar tudo e finalizar a operação. Minha irmã e meu cunhado se abraçaram e choraram por saber que eu não teria mais nenhuma chance.

Mas o médico ficou tentando retirá-lo o tempo todo e nos disse, depois da operação, que o órgão parecia estar preso em algum outro órgão e, por isso, não estava saindo. Que se não continuasse tentando como fez, estaria tudo acabado para mim.

A recuperação foi muito difícil, pois a dor era muito forte!
Um dia após o outro eu fui tentando recomeçar e retomar o caminho.

Certa noite, três meses após a operação, ainda afastada do mundo espiritual, pouco depois da meia-noite, despertei, pois ouvi um pequeno barulho.

Ao abrir os olhos vi uma mulher sentada no chão, ao lado da cama. Ela estava ocupada enrolando fumo num papel e havia uma taça cheia com um borbulhante diante dela, com a marca rubra do seu batom na borda. O chão parecia estar sobre luzes meio amareladas, o que cedia a ela um brilho lindo e sobrenatural. Logo eu soube quem era ela, pois estava elegantemente vestida com rendas vermelhas e seuslindos cabelos negros recolhidos por sobre sua espátula direita, caindo-lhe até abaixo do seio.

O tilintar de seus barangandãs, suas unhas longas pintadas de vermelho, me fizeram ter certeza de sua identidade.

Eu não queria saber dela e nem de ninguém! Muito pelo contrário, queria distância!

Onde ela estivera todo o tempo em que busquei por ajuda? Onde estivera Tranca-Ruas das Almas, quando me senti fraquejar diante da dor física e das minhas questões espirituais?

Ela ergueu seu rosto e me fitou com os olhos úmidos. Logo, pôs-se a falar, enquanto permanecia em sua tarefa de enrolar o fumo em suas mãos.

- Ficamos tranquilos, pois os mentores do Frei Luiz nos deram certeza de que você sobreviveria. Todas as vezes em que buscamos por eles, gentilmente vinham até nós e nos esclareciam sobre os bons auspícios do seu caso.

Ela deixou o cigarro de lado e buscou a taça para sorver um gole.

- No dia da operação, estávamos todos junto a você e permanecemos fora da sala de operações, respeitosamente agrupados, sem o menor temor quanto a qualquer risco de vida que você pudesse correr. Mas depois de muitas horas de espera, vimos uma majestosa figura, que apesar de não emitir luz alguma, possuía uma energia tão potente e amorosa, que emocionou a todos nós.

Esse que nos pareceu ser um Mestre, nos pediu que entrássemos em formação, pois que você faria a passagem.

Disse que, com a sua passagem, perderíamos todo o contato com você, voltando, assim, para os nossos lugares de origem.

Ele pediu que nós o seguíssemos até a Sala de Operações, pois poderíamos abraçá-la, antes que você seguisse para as pairagens espirituais.

Eu e todos os que compunham as falanges das encruzilhadas e dos cemitérios, nos abraçamos surpresos diante do que ouvíamos. Nos considerávamos tão fortes e, no entanto, não nos foi dada a chance de reagir a Magia Negra feita covardemente num cemitério, para lhe tirar a vida.

Não quisemos ficar ali, pois nos sentíamos injustiçados com aquela situação. Os Mestres haviam garantido a nós que você ficaria bem! Assim sendo, desobedecemos as ordens e partimos para a rua.

Andamos por um tempo infinito por muitas ruas completamente desertas e silenciosas, como se estivéssemos numa cidade fantasma. Queríamos nos vingar da tal mulher que se acumpliciara com as Trevas para lhe prejudicar, mas apesar de andar exaustivamente, voltávamos sempre ao mesmo lugar de onde havíamos partido, que era a porta do Hospital. Finalmente fomos vencidos por nossa própria fraqueza e incompetência, apesar de ser um momento tão crucial, que era o de provar a enorme devoção que tínhamos por você.

Logo ouvimos a voz daquele Mestre Espiritual, que estivera conosco no hospital.

- Por quem vocês procuram, meus filhinhos? – sua entonação era d’um pai carinhoso que se dirigia aos seus amados filhos – Não existe ninguém para vingar! Como pode o aluno querer se vingar do professor que lhe passa uma difícil tarefa, dando a ele, assim, a grande oportunidade de evolução intelectual? A lição terá de ser assimilada, por mais difícil que seja! Não existem culpados! A moça que fez o trabalho deu a todos vocês, inclusive a esta que se despede da vida, a chance de regeneração, através da virtude do perdão! Vocês precisavam aprender com as lições dela, através de suas próprias experiências. E ela, aquela que hoje se despede do corpo, lhes proporcionou esta oportunidade ímpar, pois jamais recuou diante de nada!

Não se pode negociar com as lições do inevitável! Não se lamentem! Venham comigo, pois ela ficará muito feliz em vê-los!

Estávamos desorientados e, por isso, agradecemos aquelas esclarecedoras palavras.

De volta ao Centro Cirúrgico, vimos o médico pedir a anestesiologista que fosse lá fora avisar que o pulmão não estava saindo e que ele fecharia o corte, finalizando a operação.

Mas, de repente, a porta por onde a anestesiologista acabara de sair tornou a se abrir e vimos um homem alto e forte, trajado de branco, que parecia ser um médico. Não pudemos definir se ele era encarnado ou desencarnado, pois que sua energia vital parecia estar neutralizada.

Sem demonstrar nos ver, ele colocou sua mão direita dentro da incisão feita pelo médico e pronunciou algumas palavras que não pudemos compreender.

Logo, vimos muitas figuras escuras se formando. Era uma multidão delas. A figura que estava à frente de todas e que tinha uma horrenda fisionomia, berrou para o homem que estava com a mão na incisão:

- Tire a mão daí, pois ela já está conosco! Ela foi pedida e vamos levá-la daqui!

Não havíamos reparado haverem espíritos ali. Eles se fizeram visíveis depois que aquele homem adentrara na sala.

- Onde está o merecimento dela em ter a vida ceifada por vocês?

O ser da face horrenda pareceu titubear na resposta, pois não compreendera aonde o homem queria chegar. Aproveitando tal atitude, o homem tornou a perguntar:

- Onde está o erro dela? Por onde ela lhes deu passividade, que, no caso, é a passagem para as suas funesta

s intenções?

Ainda confuso, o ser respondeu:

- Ora, ora... Ela fumou todo o tempo, está compreendendo?! Nunca se preocupou com a saúde! Foi por essa brecha que pudemos adentrar em seu corpo, com a ajuda dos microscópicos seres da primeira dimensão, que nos cederam as bactérias neoplásicas necessárias para tirá-la do corpo!

Depois de falar isso, o homem soltou uma gargalhada rouca e estridente, que fez estremecer a sala. Ele parecia querer demonstrar força com aquela atitude.

Antes que sua gargalhada parasse de ecoar, o homem tornou a falar:

- Pois, então, se o erro dela está no pulmão, leve-o com você!

Novamente o ser se complicou, sem saber qual atitude tomar:

- Nada disso! – retrucou ele – Ela está pedida e nós temos ordens para levá-la conosco!

- Mas vocês só podem ir até onde o merecimento dela não alcança! – Vou lhes mostrar, então!

Passando as duas mãos sobre seu corpo, este ganhou luz própria, reluzindo em várias cores, projetando muitas faces iluminadas no teto e nas paredes da sala, deixando o homem e todos os seus asseclas assustados. As luzes rodopiavam pela sala, feito um furacão multicor, provocando emoção indescritível em todos que ali estavam. Vimos os habitantes do inferno sendo zelosamente cuidados por seus guias, disfarçados em demônios. Passamos a perceber, então, as falanges com as quais você esteve a trabalhar, mas que nem mesmo nós tínhamos conhecimento delas. Haviam os leprosos, os doentes mentais, os suicidas, os que sofriam de doenças incuráveis e os santos exorcistas.

A única parte que ficara visível, carnal, humana, possível de ser tocada, tinha sido o pulmão, que se encontrava com um aspecto escuro, tomado pela doença.

O ser que reivindicava seu corpo e, assim, a sua vida, ficara sem saber como proceder para levar você com eles. O Homem de branco tornou a acessar a incisão feita pelo médico e sem nenhuma dificuldade retirou todo o órgão, colocando-o nas mãos daquele que o reclamava.

Ali se desenrolava um drama que, na verdade, era um memorável encontro entre a treva e a luz.

O ser ficou a segurar o órgão sem querer se retirar do ambiente, distraído com tudo aquilo que via acontecer. As luzes passaram, então, a atravessar os corpos espirituais de todos eles, causando-lhes sensações nunca dantes experienciadas.

E naquele exato momento, o cirurgião tentou e conseguiu, finalmente, retirar o pulmão, colocar os clipes nos brônquios e passar o órgão por entre as costelas.

Ficamos muito felizes em tê-la conosco!

Ela sorveu mais um gole da espumante que mantivera em sua mão e a ergueu sorrindo.

- Brindemos à vida!