Enquanto permanecermos na terceira dimensão, precisaremos vencer as Leis que a regem, trabalhando incessantemente no intuito de superar o mal que sempre tenta nos afastar do caminho da luz e da fé!
Mas segundo Santo Antão, as tentações são manifestamente uma condição indispensável para se entrar no céu. É através das tentações que o homem obtém um faro do Deus verdadeiro. Sem tentação o homem estaria no perigo de apoderar-se de Deus e torná-lo inofensivo e inócuo. Pela tentação, porém, o homem experimenta existencialmente a sua distância de Deus, sente a diferença entre o homem e Deus. O homem permanece em luta constante, enquanto Deus repousa em si mesmo. Deus é amor absoluto, enquanto o homem é continuamente tentado pelo maligno.
O mal sempre se insinua sobre todos os homens que buscam a iluminação. Vou contar um pouco da história de Milarepa (1040-1123), o jovem feiticeiro, considerado o iogue que mais experimentou as possibilidades da mente e que é tão popular no Tibete quanto Yemanjá no Brasil.
Milarepa nasceu numa abastada família de camponeses do Tibete, mas depois da morte de seu pai, seu tio roubou todos os pertences herdados, deixando ele, sua irmã e sua mãe na miséria.
Sua mãe depois de muitas dificuldades, revoltada com aquela injustiça mandou que Milarepa procurasse um mago negro e que aprendesse magia negra no intuito de destruir o tio.
Durante muitos anos, Milarepa treinou magia negra até tornar-se um mago negro.
Ao retornar, ele passou a perseguir seu tio e seus familiares com terríveis sortilégios. Quando seu tio promoveu uma festa para mais de cento e cinqüenta pessoas, Milarepa provocou uma chuva de granizo, o que causou a morte de todos que lá se encontravam.
Vendo os corpos de dezenas de pessoas, inclusive os de crianças e de bebês, Miralepa se arrependeu, pois seu ódio caiu no vazio e no silêncio de suas frágeis vítimas. Ele concluiu que fora mais ganancioso que seu próprio tio.
Assim sendo, fugiu para as montanhas e lá ficou durante algum tempo. O próprio mago negro que o havia instruído, o aconselhou a buscar a iluminação.
Depois de um período aprendizado junto a dois grandes mestres, Milarepa foi conduzido a um grande Mestre de nome Marpa. Logo que ouviu o nome de Marpa, uma onda de felicidade invadiu seu coração o fazendo chorar de alegria.
Mas Marpa impôs inúmeras provas a seu novo discípulo, obrigando-o a construir e desmontar nove torres, sendo que a última de nove andares.
Sem murmurar, Milarepa o fez humildemente. Os outros discípulos de Marpa amavam Milarepa e não entendiam porque Marpa o tratava assim tão rudemente.
Marpa exigiu que Milarepa levasse presentes para o círculo de alunos, pois caso contrário não o aceitaria como aluno. Sem bem algum, Milarepa aceitou a oferta da mulher de Marpa, Damena, que deu a ele um saco de cevada e alguns cortes de seda, para oferecer como presente no círculo de alunos. Ao identificar os presentes como sendo de sua propriedade, Marpa chutou violentamente o magro corpo de Milarepa, expulsando-o da escola.
Milarepa saiu dali e escondeu-se num arbusto, já pensando em se suicidar. Pela manhã, ainda escondido, ele ouviu a voz de Marpa e saiu do seu esconderijo.
Marpa pediu perdão a Milarepa, alegando estar bêbado quando lhe ordenou que construísse e desmontasse as torres, assim como quando lhe expulsou à pontapés do círculo de alunos.
Milarepa prostou-se aos pés do mestre e implorou que ele lhe instruísse.
Logo, Milarepa banhou-se no rio, vestiu roupas tecidas por Damena, mulher de Marpa e ocultou-se do mundo da forma, numa caverna escondida, de onde só saiu depois de haver atingido a Grande Perfeição e de alcançar todas as realizações comuns e sublimes do Grande Selo.
Foi mestre de vários discípulos famosos e escreveu vários poemas sobre o Dharma.
Aos oitenta e três anos, já completamente liberto do mundo do reino e da forma, Milarepa sabia do seu breve desaparecimento.
Durante a semana que antecedeu seu desencarne, pétalas de lótus caíam do alto e forravam o chão, tanto de sua caverna, quanto do solo por onde pisava.

Até quinze quilômetros ao seu redor, aromas dulcíssimos perfumavam o ar e maviosas músicas podiam ser ouvidas.
Logo depois que seu corpo foi cremado, Anjos se materializaram para levar suas cinzas e suas relíquias para o Céu.